Letras na parede

Os meninos tinham falado que os barulhos de coisas se quebrando na colina das ruínas da antiga igreja eram fantasmas das pessoas que dedicaram sua vida à beatitude e não foram pro céu. João não ligou para as telhas que caíam enquanto encontrava um jeito de subir dos bancos amontoados para o que sobrara do sótão de madeira úmida. Nem para os joelhos que arranharam se apoiando nas farpas. Nem para o gemido do vento, o sussurrar de frases que não sabia de onde vinha ou se alguém estava falando.
Quando chegou no telhado, viu toda a cidade em sua extensão e harmonia até a colina da costa do mar. Pensou nos outros meninos da sua idade, pensou no medo que eles e as outras pessoas tem de coisas que, para ele, não tem medo nelas. Uma telha em algum lugar caiu sem porquê.
Aqui no alto o ar tem outro sabor. Respirava e contemplava aquela existência. Pegou um caco e desenhou seu nome na parede da torre do sino.