Letras na parede

Os meninos tinham falado que os barulhos de coisas se quebrando na colina das ruínas da antiga igreja eram fantasmas das pessoas que dedicaram sua vida à beatitude e não foram pro céu. João não ligou para as telhas que caíam enquanto encontrava um jeito de subir dos bancos amontoados para o que sobrara do sótão de madeira úmida. Nem para os joelhos que arranharam se apoiando nas farpas. Nem para o gemido do vento, o sussurrar de frases que não sabia de onde vinha ou se alguém estava falando.
Quando chegou no telhado, viu toda a cidade em sua extensão e harmonia até a colina da costa do mar. Pensou nos outros meninos da sua idade, pensou no medo que eles e as outras pessoas tem de coisas que, para ele, não tem medo nelas. Uma telha em algum lugar caiu sem porquê.
Aqui no alto o ar tem outro sabor. Respirava e contemplava aquela existência. Pegou um caco e desenhou seu nome na parede da torre do sino.

Manifesto

- Aprecie o caminho
- Pare e olhe em volta.
- Fique um pouco e escute.
- Desconfie de si quando algo não te agradar
- Feche os olhos e respire devagar.
- Rabisque qualquer coisa.
- Dê mordidas menores, mastigue mais.
- Desconfie de si quando discordar.

Conflitos

Existir é relacionar-se;
Relacionar é afetar e ser afetado
Pelas partes quais me relacionam.
Eu morro nas relações.

Alegria é o resultado da harmonia entre partes que se relacionam. Ganho de potência.
Morte é toda relação entre partes que nos rouba potência.

Olho do Solitário

O perigo espreita e na beira do seu holofote, caminho. Já não consigo ficar parado. Meu descanso não é aqui: é embaixo de uma árvore perto das estrrelas. Suas raízes crescem no movimento infinito da expansão. Sua é a minha sombra e já não sou mais.
 Um ser que agora é um campo de batalha. Chega o enunciado meio-dia da vida. Guerra! Guerra é a condição que tanto fugi.
 Quem é o amigo que não conheço? Quem é aquele que me ensina?
 Vozes e tambores cantam silêncio.
 O Olho do Solitário espera em outra casa atrás de uma janela dentro de outra janela.
 Agora sabe que sei de você.

Órbita

Do calor para o frio
Do professor para o aluno
Do amante para a amante
Da chuva para o asfalto
Da pele para a curiosidade
Da paz para a guerra
Da boca para o beijo
Do pão com manteiga para o chão
Da fome para o cheiro da comida
Do sério para a comédia
Do gozo para a depressão
Da seca para a sede
Da solidão para a companhia
Da companhia para a solidão
Da falta para a posse
Do vazio pelo que preencha
Do segregado para a beatitude
Do caos para a ordem
Do material para o espiritual
Da família para a ovelha negra
Do pobre para o rico
Da inércia para a retidão
De casa para meu destino

E agora?

Seja qual for a resposta que você der, tudo girará em volta dela. A natureza do que te é mais elementar está na realização do querer. O que fundamenta o fundamento. Auto-realização. Realização em si, da palavra, da origem da palavra, do que pensou a palavra. Da corrente que trouxe o pensamento.

Hã?

Pessoa A:  Imobilidade mesmo no conjunto por forças ocultas ou desconhecidas. Confesso que desisti de mudanças nos outros e foco mais em mim mesmo, mas como sou relaxado e esquecido estou sempre numa estéril participação social e política.

Pessoa B: Hahaha que isso! Não desanime consigo. Política, social, mudanças nos outros são distrações. O que interessa de verdade? O que importa? O que é mais elementar?

?

Não ensino quando quero ensinar, não trabalho quando quero trabalhar. Quem sou?

Mandalas na parede

Era uma garota de coração simples. Queria estar em uma posição de amor. Não uma princesa. Há muito tempo havia abandonado tal instinto. Era amor como natureza. Tinha uma missão como todos aqueles que estão em uma jornada.
Entregou uma flor para um jovem rapaz que caminhava tolhido em direção a porta que dava para a chuva. Eles se olharam. Um olhar de calmaria tão sem fundo que ela teve de se segurar. Houve gratidão, nenhuma palavra.
  Ela se virou de costas e continuou pela rua com seu cesto de flores. Ao longo do caminho, casas alinhadas com jovens tristes na janela. Milhares de centenas de casas se estendiam ao infinito do abismo dos olhos do jovem rapaz.

Po-em

Aprecie o caminho
Aproveite a travessa
Contemple o pathos
Não tenha pressa
Eu escapo tudo, fujo de qualquer linha reta que você ande para o meu sonho. Um brilho repentino no canto da sua visão. Gosto da distração do brilho. Orbito.

Pathos

A meta dentro do pathos, definida como um ponto na frente do presente é uma das coisas mais desafiadoras que já me foram incubidas. Ter um sonho e acreditar nele. Ter um foco e trabalhar para que seja alcançado. Eis então algo desafiador?

Vasco x Flamengo

Por a imanência estar em tudo, toda reprodução de papéis é uma tendência a um aspecto seu seu. Uma briga de torcida é outra dimensão da multiplicidade de um conflito interno que acontece em todo ser. Bobagem. Por que uma torcida briga com a outra?

Objeto

 Não olhe para as horas. Agora que olhou, elas te farão perguntas, se já não fizeram. Quererão que as preencha. Se já não o fez.

Princesa e Cavaleiro

 Pois ele foi um cara desses aí. Lia histórias de que gostava e outras que não.
 Tinha fé ano após ano no que entendia, no momento, que deveria ter fé. Trabalho melhor. Curso para trabalho melhor. Vida melhor. Relacionamento para vida melhor.
 Tinha suas músicas prediletas. Gostava de ouvir para sentir a paixão. De alguns estilos bem específicos, queria ser punk e Legião Urbana. Grunge e Cazuza. Queria se identificar. Ou demonstrar sua identificação?
 Havia parado de rabiscar frases nos cantos das folhas para ser adulto. Era um homem de bem, como sua mãe dizia. Era franco, por natureza e opção. As mentiras que contava não lhe suportavam por muito tempo.
Gostar de uma garota só, aquela que só ele gostava. E só ele gostava como podia gostar. Amava na sua condição de amante da garota. Sem permitir o transformar disso no que poderia ser. Um bom sexo? Um romance como contavam as fadas? Um relacionamento de eternos cúmplices?
 Não. Apenas o amar a garota. Princesa e cavaleiro.

Supernovas e madrugadas

 Tem um momento, um sutil momento, que será ignorado e talvez até negado. Mas por ser negado é que existiu. É quando você observa algo que deveria estar ali, ser como de costume, mais uma postagem daquele ser, mais uma conduta, um balbuciar condizente, uma fala esperada e entanglado naquela realidade. Um minuto dentre os outros. Uma pessoa dentre as outras. Um arquétipo conhecido, alguém que você sabe onde se encaixa, com traços e trejeitos certos, denominados, pré-estabelecidos. O momento, o alguém, quer sair de onde está, da condição que está, por isso segue, quer mais do que isso, quer que seus sentimentos todos saiam de si e se expandam para além do seu limite. Erupções de gases inertes, poeira cósmica, chama de plasma, sentimentos reprimidos todos rasgando o espaço a sua volta numa explosão violenta e delicada de uma super nova.


8 minutos

8 minutos 
Vai ter piscina 
Na chuva 
Dentro de mim 
Dentro da minha
Ao lado da sua esposa 
Bom dia eu te amo
Vem logo
Não gosto de deixar você andar 
Não, né? 
Em tudo que é canto tem prédio construindo 
Eu sonhei com um cachorrinho
Quer dizer alguma coisa, sabe? 
Mas vamos fazer o que? 
Gostei da sua ideia
De onde vem algo assim? 
Você está rindo 
Guardava em baixo do colchão
Aproveita o dia para fazer isso aí
O problema é contratempo 
Que preguiça! 
Vejo você em quantos ônibus
Tenho que conseguir
A árvore procurou o sol
Ficou toda deitada 
Para fazer fotossíntese 
Estou com sono
É um processo 
Por aí vai, né? 
É muita coisa 
Já são quase oito

Doce Dançarino Trôpego


Em nossas buscas o destino nos leva a tal lugar para encontrarmos algo diferente daquilo que achamos que queremos. Para entender que não queríamos. Para entender o que é querer. Para entender porque buscamos. E assim, a pressuposta busca se torna mais um passo em meio a tantas pegadas tortas que me levam aonde estou. 


De longe


A forma sem forma. 
A forma que forma
vem do infinito, 
E ao infinito ela retorna 
Pássaros 
Um triângulo 
Um risco 
O céu 
Pontos 
Que desaparecem 
Ao infinito retornam 
Dentro da minha percepção