Monólogo com o Tempo


Sentei na frente do tempo 
Ele queria conversar 
Pedi um café 
Ele um chá 
Como tem passado? 
Como posso 
Como soul
Vai chegar lá 
Vou quando terminar 
Sinto falta 
Não sabe o que diz
Vai esfriar 
Vai ser feliz
Vamos dançar? 
Não diga que não quis 
Vou aprender 
Vai se perder 
Te achar
Te ser? 
Tecer


Do Zeit

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Há um ponto onde tudo gira em volta. Belo, justo, gerador do tempo e da realidade. Esse ponto pode estar escondido no meio de tantas defesas, diligências. Cercado de ídolos com rostos rígidos. Guarda e prontidão. Uma linha horizontal tão fina e reta que quase some abaixo do nariz pontiagudo. Um escudo e uma lança em cada flanco. Ostensivos contra qualquer um que ouse tentar passar. 


Da consecução

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Da consecução.
Encontro o que tenho que encontrar para isso me levar a outro lugar. 
Não se passa por um onde sem antes ter estado em outro. 
É impossível estar no mesmo lugar no espaço duas vezes. O planeta gira e anda no seu caminho. Sua casa agora não está onde era ontem. 
Se lembrar que tempo e espaço é uma só coisa, então estará mais distante ainda de onde estivera. 
Fogo nos olhos, aguce os ouvidos. Esvazie os pensamentos para ver a novidade, a surpresa, a possibilidade do devir. 


Onde mora


Guardei para mim o amor que me deu
Coloquei numa caixinha
Dentro de uma foto nossa
Pendurei na lua
Quando a noite chegasse
De modo simples e gracioso
Você ainda me iluminasse
De modo novo e minguante
De modo cheio e andante
De modo sem modos 
E teria de ser astronauta
Para ver onde se esconde


Sem música

Sem onde
Pensei que...
Não é nada. 
Não era nada. 
Sonho que tive e não lembrei. 
Serve pra ferir a alma, 
florescer a alma, 
crescer a alma. 
E serve assim 
Tudo acalma
Para mim. 
Tudo acontece 
Fico de saída 
Estou de passagem 
Sem falar
Fico depois 
Da esquina 
Onde não tem lugar 
Onde não consigo te ver 


Da força vital

Atabalhoado. 
Cresce aqui e ali. 
Tão pequeno e sutil 
que é grande e envolve.
A procura não tem 
Seu fim no achar
Mas um começo 
No que é elementar. 


Da verdade

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Da verdade. E tudo passa a afirmações, demonstrações de um ser sendo. Ser. A promessa de uma estrutura sólida, parede do universo, impositiva, intransponível. Quando o silêncio nasce do som; onde do ódio, da mágoa, nasce o amor. Onde na ignorância brilha a chama do algo mais, ilumina a escuridão. A escuridão é condição. 
No epigrama perdido encontra a sabedoria anciã. Nas linhas rebeldes, inconsequentes, os olhos de quem vê procuram o novo olhar próprio. Um olhar perdido no tempo em que o apego era a volta para o útero. Livre de eu sou, livre do que se amontoa no que são. Livre para olhar. Além do bem e do mal.


Da escuridão

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Ah, a escuridão. 
Tão macio e gostoso é o teu sorriso que me faz esquecer tudo que vivi até aqui, tudo que virá depois. Daqui. Queria esculpir na parede da realidade seu semblante, para que jamais mudasse. Pois tudo muda. 
E tudo muda.
E seu sorriso se fechou. Sorrisos se fecham, se abrem de novo. Podem abrir porque um dia se fecharam. Enquanto tudo muda, um pedacinho de eternidade é uma nuvem macia e gostosa para se deitar. 
Nos faz esquecer a escuridão que nos cerca. A falsa vilã do que deixamos de ver, sentir e acontecer. 
Sonho em não sonhar. 


O desejo vem em portas...

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Que tudo termine bem 
Que você tenha quem amar. 
Que vai e vem
Que a política não te conforme
Que os outros te guiem 
Que possa aceitar o que te dão 
Por quê? Quê, ou quem? 
Que sempre seja assim 
Que a mentira sempre caia
Que te digam como as coisas são 
Que porquê te serve? 
Que te sirva bem 
E se não servir, 
A porta está além


Na fonte da vida

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A garota dos sonhos perdidos 
Anuncia que vai
E tem boa fé 
Por isso se entristece com o mundo 
A garota dos sonhos perdidos 
Ama o amor 
Perde sonhos por amor
Flerta com o flerte 
Finda o belo em si
A garota dos sonhos perdidos
Usa um vestido 
Com estampas de vida 
Por cima da angústia
Que por cima da vida
A garota dos sonhos perdidos
Está em mim, 
Quando admiro o sol 
Que é mar. 
Está no vôo dos pássaros 
No fim da tarde 
E não está. 
Está no infinito 
Saindo de lá 
Voltando de lá 
A garota dos sonhos perdidos
Quer saber o que penso 
Do que ela fez 
Quando a vejo 
Quando quer ser vista 
A garota dos sonhos perdidos
Cansou 
E por isso se repete 
Na emanação reclusa da insistência 
Na coerência e convicção 
Na natureza 
Na fonte da vida 
A garota dos sonhos perdidos
Cansou
Tirou a coroa 
A boa fé 
Os sonhos perdidos 


Muletas

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O funâmbulo se equilibra como pode. Acredita que pode e sabe algumas coisas. Uma ou outra. Acredita, não no que sabe. Porque sabe. Mas será que sabe no que acredita?


Kalpa

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E me pergunto por que tudo existe nesse mundo enorme cheio de pessoas, cada um lutando cada segundo para resistir na sua vida difícil, na vida de conseguir se afirmar em algo que o defina. Então estou na deserta rua da madrugada contemplando esculturas de corujas. Apreciando cada passo do caminho como ella me ensinou. A doce fragrância de sua pele passa por mim num instante. Escrevo versos que nunca são bons o bastante para se concluir. Mas não os jogo fora. Serão eles alguma coisa que não o que são? Penso que foi assim que se inventou a arte.

Ou que assim ganhou sentido?

Uma fotografia tirada numa tarde em meio a tantas tardes da incalculável existência. Uma tarde que existe na foto apesar da voracidade dos dias, semanas, meses, kalpas, cunha, enem, o noticiário, a lua cheia, a coruja da rua, eu e você. 
O que eu acho? 
Vou dizer bem rápido: Os dois. 


Assim sempre podia ser?

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Era apenas uma história
de que se ouviu falar. 
Um sanduíche de memória 
E um morango para agradar. 
Tapete de areia 
Por cima do mar. 
Duas fatias de pão, 
creme de nuvem, 
sol estrelado. 
Para a sobremesa, coração 
Que não desmancha
Quando se come
Do quintal ao banheiro 
Dentro ao final inteiro. 
E do mundo sozinha 
O acalento de se sentir minha. 
Um dia que se viu na sombra da luz do dia que termina. 
Quando que tudo muda,
Eu desapareço,
Dos erros me esqueço, 
como se não fosse o suficiente,
Do caminho apreço 
Que não há erro 
Senão no presente. 


Do presente, em Ripple

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Diagrama em Ripple


Do presente. O Objeto Percebido não pode ser alcançado enquanto objeto, pois quando "é" , o objeto é outro. Nunca é consumido. Estamos perseguindo algo a ser alcançado que nunca chega. Uma cenoura eterna cenoura amarrada na testa. Que ora é um celular novo, um filme, uma tarefa no trabalho, um problema a resolver, uma sensação, um amor. Existe opção: Podemos oscilar para o passado para a nostalgia ou a culpa, ansiar o futuro ou ter esperança nele. Mas o que interessa é o objeto, próximo passo do pathos. Algo que não existe, ainda. Ou nunca. Os hindus chamam isso de Maya, o véu da realidade


Do Presente

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Do presente. A mente não sabe a diferença entre passado, presente e futuro. Ela é veículo do caos. Por natureza burro, enérgico, infinito.
Onde o futuro ainda não tem forma e o passado já deixou de ser, o presente é a única coisa que existe. A percepção do que é objeto é o objeto em si, objetivo, alvo. O entendimento, a construção, o que você conhece, as conexões desenham a linha da espiral.

 

"É preciso evitar a lassidão" - Sutra da Lótus


"Controlar a alma sem o corpo é como segurar um touro pelos chifres. " - Nietzsche 


Meu trem

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Espero meu trem 
Sua hora não sei 
Mas a mim ele vem
Na estação que estou 
A chuva toca o prelúdio
Pelo doce tilintar de mim
A a água que respiro. 
Com notas em três 
E compasso em giro
Pois o tempo só passa
Quando o relógio miro. 
E tudo que está 
Ainda perdura 
Até saber o não sabido, 
Que a novidade 
Só habita sentidos. 
Minha paciência um gato se vira. 
O criei, o alimento e aqui o vejo. 
Seu amor me cresce como vão os dias. 
Ele caminha por cima das coisas 
Que me interesso, por onde olho 
Por seja onde me expresso. 
Ronrona de prazer por respirar 
E estar na minha espera. 
Sobe no meu colo
Se torna minha virtude, 
Sabe os pensamentos que não tenho, 
Algoz sádico da inquietude. 
Sabe que tudo é maior 
Que sou parte 
Que ele me é
Paciência que não parte 
Enquanto o trem não existe
Aprecio do felino a arte